Hoje não, obrigado

Compaixão

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Claire e René jantam no restaurante L´Ambroisie. Uma vez por semana, geralmente nas sextas. Exatamente no mesmo restaurante em que René fez o pedido de casamento, o tempo já perdido em suas mentes. O mesmo vinho. O mesmo prato. Os mesmos gestos.
Não obstante, René, hoje está inquieto. Certa perturbação causada pela incerteza está destacada em seu rosto. Claire, hoje brilha. Como ontem e todos os outros anos, bela e saciada pela sua vida. René quebra o silêncio desalento.

– Vamos acabar isso.
– Sim, René, meu amor. Vamos terminar o jantar, certamente.

René segura a mão seriamente de Claire. Suavemente contraindo a mão no anel de casamento já presos em seus dedos.

– Vamos acabar com isso!

Eles se afastam.

– Eu fiz algo errado?
– Quando te conheci, eu te vi como um cachorro ensopado na chuva, perambulando pela vizinhança…
– Um cachorrinho… ensopado?
– Perceba bem, eu estou velho e sem paciência, então serei direto.
– O que estou tentando dizer é que não era amor. Você estraga tudo o que você faz, e você já alcançou essa idade sem nem mesmo viver um amor verdadeiro… Eu acho que senti compaixão por você.
– Embora amor possa começar com compaixão, eu não consigo forçar mais um segundo esse casamento com compaixão. Não importa o quanto eu ignore suas ligações, não veja você, me esquive na cama e jogue indiretas, você não conseguia perceber de jeito algum.
– De qualquer forma, eu realmente sinto muito.
– Eu não queria te machucar.

Claire deixa uma lágrima escorrer pelo seu rosto. Levanta-se. E sai. René apenas acompanha com os olhos em desânimo. Claire para. Caminha até a mesa. René sente-se apreensivo. Claire se aproxima e olha profundamente melancólica para René.

– Me desculpe. Você durante todo esse tempo não quis me machucar, mas eu fui muita cega para perceber isso. Eu não posso dizer “passar bem”, então adeus.

René toma seu último trago do Sassicaia Bolgheri.

Written by Elizaldo Barreto

janeiro 27, 2011 at 12:56 pm

Publicado em Personagens, Relatos

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Enviar

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Eu apertei ‘Enviar’. Já não aguentava mais. Cheiro o café. Não passo minha vida toda no Hotmail. Digo, é legal no começo, mas… é muito intenso. Você sabe, o sentimento quando sua caixa de entrada avisa que tem nova mensagem, em negrito, e diz que você tem e-mail.

O nanossegundo depois de clicar e aparecer. Pensa: “ele escreveu”.
Você fica toda feliz, mas sua caixa de entrada em negrito tem um e-mail da merda da Amazon.com, com a venda de um abajur em promoção. Porque… porque sou fraca. Alguém que você coloca num pedestal está sempre certa. Foda-se. Rejeição é difícil, mas… é melhor resolvê-la logo.

Não?

É como uma guilhotina. Mas… esperar por uma resposta… passar semanas pensando que sou uma merda… enquanto ele vai embora. Loucura, não? É como ter sua cabeça cortada em câmera lenta. É como um longo e persistente ‘Não’. Mas em um certo ponto, você perde a paciência. Você se esgota. Você se esgota e tudo fica desprezível, tudo fica escuro e podre.

Então eu apertei ‘Enviar’.

Written by Elizaldo Barreto

janeiro 6, 2011 at 2:04 pm

Publicado em Filmes

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Abstenção

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– Por que você sempre vira as costas?

Pausa e um turbulento silêncio. Afinal, em sua reminiscência, novamente projetava nitidamente aquele sorriso inebriante. O corpo que ainda deseja ardentemente, depois de longos e tortuosos anos. Impossível enganar a si mesmo, ou outrem. Ainda mais a mulher que se casou. E que acabara de fazer o rotineiro, frio e vazio sexo.

– Não sei por quê.

Written by Elizaldo Barreto

novembro 25, 2010 at 7:55 pm

Publicado em Narração, Personagens

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OFFLINE

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Desta vez eu não falarei em terceira pessoa. Muito menos contarei um conto, prosseguirei com meus personagens ou incluirei algum. Falarei por mim, como autor deste humilde e sem valor blog. A propósito pouquíssimo visitado. Contarei uma história até verídica, resumida, sobre a minha vida e a importância da tecnologia sobre a mesma. Antes de tudo, devo contar que meu único computador pessoal, um laptop que poderia ser barato para qualquer um, – para mim foi o maior investimento da minha vida – está morto, e tudo que nele continha.

Eis a história: Um garoto de onze anos, reprimido, solitário, envergonhado com suas carnes escassas, encontra o que foi a salvação da sua medíocre vida. Um computador IBM 486 com processador de 33mhz. A progressão foi lenta, porém exponencial. Já aos doze anos já programava em HTML e brincava de usar Linux. Nada disso lhe deu dinheiro, nunca se importou com isso na verdade. Gastou todo seu tempo graças ao íntimo ser autodidata. Tudo que hoje aos vinte e quatro anos sabe, foi devido esse ostracismo social. E isso agora já lhe rende dinheiro. Infelizmente o pobre rapaz repudia atualmente, e isso é completamente discrepante.

(Já disse que não falaria em terceira pessoa). No entanto, não recuso a falta que o computador me faz, pelo contrário. Tive meu primeiro contato de fato com computador rodando sistema DOS aos oito anos, somente aos onze tive acesso à internet – discada – que ficava contando as horas até meia noite para poder conectar diariamente. Tudo que quero dizer é que, esse objeto material e tecnológico é muito mais importante que a paz no mundo, que um amor, realização profissional ou acadêmica. Porque tudo na minha vida depende dele.

Nele eu sorrio e choro, xingo e elogio, durmo e acordo, produzo e sou inútil, assisto, ouço, escrevo, leio, trabalho, ganho e perco dinheiro. Nele conto histórias, faço amizades e construo melhor as que tenho, também às perco. Flerto, sou flertado, levo foras e dou foras.  Me informo, adquiro conteúdo desnecessário, aprendo mais e consto que ainda nada sei. Todo trabalho de uma vida perdida nas “cinzas” do meu querido e falecido laptop. Estou sem luz. Imaginem alguém muito importante na sua vida. Imaginou? Agora imagine ela morta.

Todo esse blá, blá desconexo é apenas dizendo que estou em estado péssimo de vida, uma pobreza sem precedentes e desolado. E estarei OFFLINE por tempo indeterminado.

Written by Elizaldo Barreto

outubro 14, 2010 at 2:43 pm

Publicado em Relatos

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Tempo

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Ao receber seu bilhete confesso ter ficado perplexo, estático, desfalecido, amedrontado.  Haveriam mais, mas teria que escrever outra carta somente para que pudesse explicar os turbilhões de sentimentos. Levei semanas para poder replicar a você o que me escreveu. Exprimir o que sempre tentei fazer você compreender e inutilmente nunca alcançou. E ainda agora, mesmo distante, ficará mais difícil de me entender.

Eu poderia resumir isso tudo em “aconteceram várias coisas e fiquei magoado”, mas quem sou para lutar contra o sofrimento de uma mulher que acusa o homem de ser o traidor? Eu estava completamente apaixonado por você e não sou volúvel. Afinal você estava amando a alma que aqui continha, não o corpo, ou me enganei? Nada disso agora existe mais e também não importa. Você levou tudo que habitava aqui. E deve ter jogado em alguma vala, porque nem mesmo enxergar o sofrimento que aqui residi, você consegue.

Não quero perdão, muito menos de um indulto do qual não cometi. Eu acredito que tudo que aconteceu já não há mais volta. O tempo destrói tudo, e ele é irreversível. Chego à conclusão que você foi a pessoa mais inesperada na minha vida e cometi o engano de despertar esse amor. Espero que você rasgue ou queime esta carta, que não tenha nenhum valor para você, mas que fique claro: Eu te amei.

Jules.

Written by Elizaldo Barreto

outubro 7, 2010 at 2:31 pm

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Solilóquio

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Houvesse de pegar uma xícara de café, acender um cigarro e pensar. Sei que nenhum dos que antecede ao pensar faz realmente refletir.  Irascível, promíscuo e inconsequente, foram as características que analisei fazendo uma breve perspectiva de determinados momentos da vida. A minha. Inúmeras pessoas que magoei. Sinceramente isso foi divertido. Sentimento de culpa?

Eternamente estou carregando isso comigo, além da melancolia, afastamento e enxaquecas. Sabe Peter, realmente agora estou indeciso sobre você, sobre nós. Se libertar de todas as prisões, conceitos e moralismo, mas ainda você pondera toda essa convenção social incrustada na sua alma.

Entenda Peter, e aceite. Desde que nós, você e eu, perdemos tudo, a nossa criatividade, inteligência e até mesmo aquela sabedoria desafinada, tudo que restou também foi embora. Da mesma forma que nossa casa foi demolida sem nenhum preço, decência ou afeição. Assim foi você e eu a vida inteira.  Só resta saber quem irá permanecer.

Written by Elizaldo Barreto

setembro 30, 2010 at 2:44 pm

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Desilusão

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O amor vem sempre com dor. Quanto mais você afunda nele, mais dor sentirá. Entreguei-me a você e, no entanto, o que recebi em troca foi a mais pura traição. Infidelidade no amor, meu bem. Rasgou-me em pedaços com tanta violência que nem sei se essa ferida algum dia pode cicatrizar.

Até mesmo agora, depois de tudo acabado, aquelas falsas lamúrias, declarações inflamadas do seu sentimento por mim são substituídas por meros casos que você agora possui. Estou tão envergonhada por tido alguém como você em minha vida. Pensei que você era um anjo, o único que poderia me escutar, sentir como sou, viver meu amor. No entanto, você com seu traje de sofrimento acabou me levando junto à sua amargura. Afundando, mergulhando cada vez mais.

Escrevi esse bilhete ao lado da porta do seu apartamento. Achei que você poderia abrir a qualquer momento, e tudo que imaginava era ter uma arma apontada para sua face com uma única bala, e tirar do mundo alguém como você. Mas isso é só a dor. Não te faria mal algum, mas você já me fez demais. Carregue sozinho esse sofrimento, estou deixando ele debaixo da sua porta.

Asssinado,

Nina.

Written by Elizaldo Barreto

setembro 23, 2010 at 2:19 pm

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