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Calma

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Peguei mais uma taça de vinho enquanto escutava aos brandos minha meiga e amável esposa. Após longos anos de convivência acabei desenvolvendo uma técnica de permanência. Apelidei assim. Ela falava e eu não escutava nada, apenas assistia em transe aqueles lábios mexendo, abrindo e fechando, imaginando um melhor uso deles. E então eu dizia:

- Você tem toda razão.

Isso impulsionava novas colocações no seu discurso. Para mim, parecia infinito, porém suportável enquanto houvesse vinho naquela garrafa. Fico me perguntando como que diabos cheguei a esse ponto.  Acabo sempre pondo culpa às drogas, o estupro e aquele emprego que perdi. Mesmo assim ainda acredito ser vítima de uma injustiça.

Acendi um cigarro. Ela tossiu. Fez aquele maldito olhar.

- Não está prestando atenção em mim mais uma vez.
- Calma, só estou fumando.
- Calma?! – Esbanjando o seu sorriso em frenesi.

Sentia-me enjoado, talvez tivesse exagerado no vinho.

- Não terei calma. Sei que anda me traindo, faz três dias que está fora de casa. E não venha me dizer que estava trabalhando, já estou cansada dessa desculpa. Quem é a puta que você está comendo?

Odeio quando ela faz isso. Porque ela não morre?

- Vai ficar calado agora?

Levantei e me servi do último gole de vinho. Saberia que agora eu poderia começar dar importância a todo esse pequeno incidente. Parecido com uma gravidez indesejada que você não pode se livrar e mesmo quando tenta o filho não quer partir.

- Nós somos o que restou de um aborto.
- Como é?
- Esquece.

Joguei a taça vazia no chão, apaguei o cigarro e segurei minha doce dama falante contra a parede. Ela usava o seu traje comum às tardes de domingo: uma mini-saia e uma pequena blusa branca folgada. Hoje sem sutiã.

Devo confessar. O que lhe falta na cabeça sobra no corpo. É inteiramente gostosa, foi a primeira e continua ainda sendo a melhor razão para está casado. Basta eu encostar contra seu corpo, sentir o seu perfume, que todo meu corpo lateja de excitação.

- Pare, seu cretino.

A convidei para um beijo enfiando minha língua na sua boca. Ela correspondeu. Levantou as pernas até minha cintura. Chupava seu pescoço percorrendo até seus ouvidos. Ela gemia.

O sexo foi a melhor e única coisa daquele domingo. Já notei que nosso relacionamento se resumiu a isso. Não me importo, porque depois dele foi longo período de paz e calma, enquanto aquele anjo decaído dormia.

Escrito por Elizaldo Barreto

março 24, 2010 em 11:37 am

Publicado em Narração

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